quarta-feira, junho 28, 2006

O Primeiro Amor.

Uma revista pediu-me uma declaração sobre.
Sei lá eu. Lembro-me de um cabelo louro, e de uns olhos azuis. Ou seriam castanhos? Tinhamos 5 anos. Não sei, é tudo muito vago. Chamava-se Patrícia. Saiu da escola, quando passámos para a primeira classe. Quando fiz uma birra ruidosa no primeiro dia da 1ª classe foi mais por isso que outra coisa, acho eu.
Depois uma morena, de longos cabelos e uma camisola ás riscas azuis. Uma morena gira, durante toda a escola primária, lá em Paço de Arcos. De longe, sempre de longe. Fui a uma festa de aniversário dela, em Carcavelos. Havia criadas de farda. Nunca tinha visto. Aquilo intimidou-me. Tinha piscina, um tanque redondo, com pedrinhas á volta. Feínho. É por causa dela que a minha irmã tem o nome que tem, a verdade é essa. Lembro-me do choque disfarçado ao saber pela Rute (que será feito da Rute?) que a minha musa gostava era do filho da professora. Ora, ora.
Lembro-me da primeira dor, isso sim. Ela cantava no coro. Tinha cabelo curto e olhos castanhos que me olhavam, que me olhavam, que me olhavam. Os golos que marquei para ela, no campo da preparatória Conde de Oeiras. A valente gripe que apanhei de bom grado porque lhe dei (não emprestei, dei) o guarda-chuva que era do meu pai. Na minha magoada memória ela nem sequer agradeceu. Ela gostava de mim, sim. Ao príncipio. E eu dela, todo o tempo. Mas eu era muito envergonhado, e uns beijinhos na cara eram já o céu. Foram. Mesmo. Beijinhos dados com riso nervoso, antes das aulas de desenho, à entrada do pavilhão. Para mim era óbvio que aquilo ia durar para sempre. E estava bem assim. Ela tinha uma t-shirt branca e uma pulseira de plástico com flores de cores garridas. Uns ténis Le Coq Sportif. Enquanto não tive uns, comprados ali na Garça Real, em frente à Igreja, não descansei. Convidou-me para os anos. Não fui, de vergonha. Era assim. Doeu quando correu a noticia de que ela andava com o Osvaldo, que já era do 7º. O Osvaldo, porra. Só então achei que lhe devia dizer que gostava dela. Disse-lhe no autocarro, ali perto do Socipala. Riu-se.
A primeira dor. O primeiro amor, talvez.
Lembro-me, bem mais tarde, do primeiro beijo, ali ao pé da Pérgula que agora é um McDonalds, e que os dentes tocaram-se, o que não era suposto. Eram nervos. Era tão gira. Que será feito?
Lembro-me das conversas ao telefone e dos bilhetinhos. E de não termos ido até ao fim porque não estavamos preparados. Eu estava. Mas concordei que ainda era cedo. Mas não era, estava na hora. Só que não disse nada disso. Concordei, mentindo convictamente.
Lembro-me de uma baixinha do Porto, muito querida. Só lembro o bom. Não houve maus, houve?
O primeiro amor...? Não sei, não sei dizer.
Ela andava na natação e o fato de banho preto, mais os ombros largos, o sorriso incrível, os olhos cor de amêndoa (ou seriam só castanhos?) e tudo, tudo, tudo punham-me louco. Quando descobri que também gostava de mim foi uma alegria que, recordada assim à distância, ainda me comove. Pela ingenuidade e por saber hoje tudo o tanto que veio depois. Quando começámos a gostar um do outro eramos uns putos e andavamos no Liceu. Foi assim durante muitos, demasiados, anos. Lembro-me que quando tudo começou, o meu melhor amigo também gostava dela, o que me criou um dilema moral tramado. Tudo se resolveu. Ou resolveu-se.
O primeiro amor. Não sei. Foi assim.


PS- A revista afinal diz que já não vai fazer a tal matéria. Foi por isso que decidi publicar o texto aqui. Obrigado pelos comentários. Soube bem recordar.



59 Comments:

At 9:25 da manhã, Anonymous 'mega' said...

'epá, muito bom este post.. gostei mesmo.. anda por aí um possível escritor em potência?!...'

 
At 9:25 da manhã, Blogger Šonђo Ažu£ said...

Ai Pedro, Pedro....

Que belo tema para abrir o apetite a uma 4ª feira...
O primeiro amor, a primeira dor...
E porque não o verdadeiro amor?
Aquele que passe o tempo que passar, haja o que houver, nunca se esquece?

...

Enfim... sentimentos!

Um grande beijo para ti e para os teus meninos...

 
At 9:30 da manhã, Blogger marta said...

que saudades dos vários primeiros amores, a adrenalina, o "nothing else mather", falta de sono e de apetite, alegria só porque sim, enfim...que haja muitos primeiros amores...sempre...

 
At 9:45 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Tu és o máximo!
Um beijinho,
AnaV

 
At 10:11 da manhã, Anonymous Andreia Moreira said...

Pedro Ribeiro, foi uma delícia ler esta descrição da tua infância, em sítios que foram tb a minha infância... Socipala, esse belo supermercado de bairro mesmo ao pé da casa dos meus pais. A escola conde de oeiras onde passei dos tempos mais divertidos na turma 2ºI...Foi muito bom recordar! Quanto ao tema que te propuseram, parece-me que “estás lá” correspondeste ao desafio proposto e o texto está fantástico! Podes mandar editar. Beijinhos, de uma ouvinte que te admira, pela simplicidade, pelo bom humor, pela simpatia. Andreia Moreira.

 
At 10:23 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Muito Bom!!! Muito empenhado:)

 
At 10:37 da manhã, Anonymous me said...

Que texto tão "sentido". Vale a pena começar a ronda de blogs diária com esta qualidade ;)

 
At 10:44 da manhã, Blogger Patrícia said...

Que bonito texto p. Já me deixaste nostálgica e a pensar também nos meus primeiros amores!

 
At 11:26 da manhã, Anonymous isa said...

e onde sai o texto?

 
At 11:39 da manhã, Blogger Ana Sousa said...

Muito giro mesmo!

 
At 11:54 da manhã, Blogger fantasma said...

Adorei. Não há mais a dizer.

 
At 11:56 da manhã, Blogger Vanessa said...

Adorei ler :)

PS: Tenho uma prima de Paço-de-Arcos chamada Rute.

 
At 12:17 da tarde, Anonymous João Marçalo said...

Melhor que o Socipala, só os ténis que comprávamos na Garça Real, que a malta chamava sempre a Graça Real (acho que o meu pai ainda chama...)
E os electrodomésticos eram comprados no Marques da Silva!

 
At 12:23 da tarde, Anonymous Anónimo said...

e a inocencia desses tempos ? ui saudades, muito bom post, 6 estrelas de 1 a 5 eheheh nuno ferreira ouvinte e admirador

 
At 12:33 da tarde, Blogger B.A.B.E. said...

depois deste texto, deixo aqui um sorriso e vou embora feliz da vida.

dia cinzento? não reparei...
hoje é dia de pensar em primeiros amores.

:)

 
At 12:46 da tarde, Anonymous pedro said...

mai nada... para quando um livro à séria Ribeiro?

 
At 1:30 da tarde, Anonymous mxgarcia said...

Sim senhor

São textos como este que nos trazem muitas coisas à memória...

E as saudades que temos desses tempos

Fizeste-me parar um bocado, recuar no tempo e lembrar ... lembrar...

Bem haja

 
At 1:32 da tarde, Blogger Mac said...

Um texto simplesmente genial.Depois de ler isto não apetece escrever mais nada e ficar também a pensar, nostálgico,no meu primeiro amor.

 
At 1:57 da tarde, Anonymous Tiago H said...

Belo texto!
Bonito.

Abraço

 
At 2:28 da tarde, Blogger Domingos Patena said...

Muti bom, Pedro. Eu revi-me no que escreveste. Também eu fiz muitas dessas coisas que tu fizeste. Não em Paço de Arcos mas em Ermesinde. Parabéns! E para quando um livro de memórias?

 
At 3:27 da tarde, Blogger Angela said...

O teu post está lindo!
Que saudades que eu tenho dos meu primeiro amor (ou amores!)
Fizeste-nos pensar, recordar...só os bons escritores conseguem fazer isso, parabéns.
Eu também só recordo o bom..memória selectiva.
Um beijo

 
At 4:25 da tarde, Blogger Tino_de_Rans said...

Porra...eu queria conseguir escrever assim. Consegues pôr-me um nó no estomago e nem sequer pessoalmente te conheço. Não são as minhas vivências que leio, mas o nó esse, fica cá sempre. Que esse livro saia depressa. Eu compro!

 
At 5:24 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Intragável...

 
At 5:42 da tarde, Blogger marta said...

intragável é seres anónimo....cobarde.

 
At 5:59 da tarde, Anonymous Anónimo said...

E tu és parva...

 
At 6:09 da tarde, Anonymous Nelson R. said...

E quem não foi assim meu cao Pedro!!!!

 
At 6:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Bom venho só emendar o erro do meu comentário onde se lê cao deve ler-se caro.é que gosto das coisas bem feitas... eu sou assim, o que posso fazer!!!

 
At 6:13 da tarde, Anonymous joao velho said...

quando li este post..... revi tanto os meus primeiros amores... sim pedro sempre fui assim... nunca me apaixonava so por uma, era masoquista! com algumas ia me safando, mas havia sempre aquela... aquela...! mas um desses amores, e depois de seis anos sem nos vermos, começamos o que tinhamos deixado pendente e hoje estamos casados! e aconteceu tudo na minha linda ericeira. um abraço grande. joao

 
At 6:21 da tarde, Anonymous Nelson R. said...

Grande Ribeiro, o tipo que fez o comentário acima, não é de confiança cuidado!!!!
Estou a brincar eu sou amigo dele, e foi isso mesmo que aconteceu! O teu texto faz-nos recordar todo um passado que guardamos com saudade!!!Parabens.

 
At 7:34 da tarde, Blogger ZapporssoN_81 said...

Pá... sem palavras, tá mesmo lá o texto! k melhor descriçao de um percurso de aprendizagem... Pedro Ribeiro

 
At 9:56 da tarde, Blogger marta said...

Sendo assim, atrevo-me a sugerir uma leitura: o "Primeiro Amor", do Samuel Beckett. Enjoy!

 
At 10:19 da tarde, Anonymous Joaninha said...

Deixa lá ver se consigo adivinhar a revista em que poderei ver essa tua visão do amor... ;)

Inspirado e inspirador, de facto.
Até me fizeste "desligar" por momentos do mundo real e deixar que o pensamento me levasse para esses momentos tão ingenuamente doces :)
Um bom final de dia, sem dúvida.

Parabéns*
Bom trabalho para amanhã :)

 
At 10:31 da tarde, Anonymous Penetra said...

boas... ando a cuscar o teu blog a algum tempo (razoavel) e ate hj era so um mirone...ate k vi este post mt bom...partilhar os primeiros amores com este público é obra...

gostei...

abraço [[]]

 
At 10:43 da tarde, Blogger Just a blog said...

Por muitos amores e desamores que tenhamos o 1º fica sempre na memória pelo bem ou pelo mal.
Concordo com o 1º comentário da "mega" e pergunto não queres aproveitar esta moda que por ai anda e que tal escrever 1 livro!!
Piores que os da MRP ou da MLC não é possivel fazer

 
At 11:18 da tarde, Blogger Ganda Bolta said...

gostei muito

 
At 11:19 da tarde, Blogger Som do Silêncio said...

Este post está uma pequena maravilha.
É difícil não revivermos esses tempos, e sentirmos uma dose de saudade....eu sinto.
Parabéns Pedro.

P.S. ( hoje chorei a rir com o teu programa, aqueles dois malucos...simplesmente fantástico )

 
At 12:47 da manhã, Blogger Ana said...

:) deliciada e sem palavras

fiquei a pensar nos meus vários primeiros amores

xxx

A

 
At 12:57 da manhã, Anonymous SoundBoy said...

Tenho saudades de me apaixonar, de voltar a sentir um "primeiro amor"...

Parabéns pelo texto, Pedro! Despertaste uma série de coisas aqui dentro! Venho já, tenho que as por em ordem outra vez... :)

 
At 3:38 da manhã, Blogger massena said...

Brutal, simplesmente brutal...

 
At 9:14 da manhã, Anonymous 'mega' said...

'cara "just a blog, só uma pequena correcção, é O 'mega', sou um gajo, lol.. no hard feelings.. de qualquer maneira, a ideia mantém-se, um livro era bem vindo, pensa nisso com calma ribeiro...

 
At 10:33 da manhã, Anonymous Sereia said...

Humm, deve ser muito bom saberes que tocas assim as pessoas.. Porque escreves sobre o que todos já sentimos e nem sempre temos palavras para o expressar. Já diria Virgílo Ferreira que as palavras são como pedras, mas as tuas não pesam.. nada mesmo..

 
At 10:54 da manhã, Blogger cvarao said...

até fiquei com um nó na garganta, confesso. Adorei ler...

 
At 11:34 da manhã, Blogger stressadinha said...

Gostei...

 
At 2:32 da tarde, Blogger SA said...

gostei mesmo.
entrei cinzenta e saio azul.

 
At 3:25 da tarde, Blogger Limonete Verde said...

Ao ler este post recordou-me os sitios que tb foram os da minha adolescência. O Pergula que agora é um McDonnalds... O socipala.
Enfim, é bom recordar locais, mas ainda melhor recordar primeiros amores.
Parabéns pelo post. Muito bem escrito !

 
At 7:10 da tarde, Blogger bz said...

q doçura :) * estórias bonitas, gostei! melhor q n tnha sido publicado, assim sinto-me privilegiada! eheh

 
At 12:12 da manhã, Anonymous Tania said...

bem adorei este post!
fez-me lembrar tambem axim o meu primeiro amor... a minha primeira dor/desilusão lol ;)

 
At 1:07 da manhã, Blogger Cristina said...

:))

não sei, não sei e...

 
At 1:19 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Depois do texto, e de outras coisas ditas( escritas ) antes de mim que mais dizer?
Simplesmente fenomenal!!!
Hasta la vista
Pn

 
At 9:58 da manhã, Blogger marta said...

Depois e um texto destes e de tantos comentários, deve ser dificil manter se à altura...

 
At 10:16 da manhã, Anonymous ohlavrac said...

Que palavras deliciosas.

É sempre bom recordar, e como dizia a música "recordar é viver".

bonito texto!
beijos

 
At 11:46 da manhã, Blogger Niki said...

que lindo... precisamente a ideia que tenho do primeiro amor, não há "primeiro amor" mas sim "primeiros amores"... maravilhoso texto, como já é habitual.... parabéns Pedro

 
At 8:15 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Essas memórias... eu também frequentei a escola conde de oeiras e a sebastião e silva e guardo grandes recordações desses tempos

 
At 11:39 da tarde, Blogger Carla Dantas said...

Ora aqui está um post muito bom.

Que pena a revista ter desistido - nem sabe o que perdeu...

Ou melhor, ainda bem que desistiu, pois assim li-o aqui, neste blog, estas recordações tão bonitas.

 
At 12:47 da manhã, Blogger BlueAngel said...

A revista perdeu imenso e nós ganhámos e muito, muito mais do que o perdido por eles! Muito lindo mesmo!!!!

 
At 8:48 da tarde, Blogger ErV@n@rIo said...

Com este texto, e apesar de só ter 25 anos, senti-me tão velho... Que tempos tão saudosos.

 
At 11:43 da manhã, Blogger abox said...

escreves tão bem...

:)

 
At 8:19 da tarde, Anonymous Sara said...

E não é que tudo o que ia dizer, já alguém o fez antes?
Gosto do teu trabalho, não sabia sequer que tinhas um blog e foi um prazer ler-te.
Qto a este post, obrigada por me fazeres reviver os meus tempos de meninice. Parabéns pela escrita.
Um beijo

 
At 3:37 da tarde, Blogger Jacinta said...

Não há amor como o primeiro. É colorido, intenso, profundo, maravilhoso, marcante porque mesmo quando acaba deixa um rasto de saudade e nunca de ressentimento ou amargura. É especial...

 

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